‘A internet deve se tornar invisível’

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Quando era estudante de pós-graduação na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), Steve Crocker participou da equipe que fez a primeira conexão da Arpanet, rede precursora da internet. Ele ajudou a desenvolver os primeiros protocolos da rede – tecnologias que permitem a troca de informações entre máquinas que usam linguagens diferentes). Escreveu, em 1969, o primeiro Request For Comments (RFC). O pedido de comentários iniciou uma série de documentos que até hoje definem os padrões técnicos adotados na internet.

Atualmente, o cientista de computação de 68 anos é presidente do conselho da Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (Icann), organização privada sem fins lucrativos responsável por coordenar a distribuição dos endereços de internet, e da startup Shinkuro, especializada em comunicações seguras. Crocker conversou com o Estado na quinta-feira, por telefone. A seguir, os principais trechos da entrevista:

O sr. estava no grupo que fez a primeira conexão da Arpanet. Como foi isso?

Steve Crocker – A Arpanet começou com quatro lugares. O primeiro deles foi a UCLA e eu fazia parte do grupo na UCLA. Com outros colegas, trabalhamos no primeiro conjunto de protocolos e em todo processo de criar protocolos.

Por que a Arpanet foi criada?

S. C. – O Departamento de Defesa dos Estados Unidos tinha muitos computadores de uso militar e eles tinham a necessidade de transferir informações de um para outro. Experimentos anteriores, com dois ou três computadores, não foram muito bem. Eles sabiam que tinham de continuar tentando para conseguir algo que funcionasse razoavelmente bem. A Arpanet foi um esforço para conectar tipos diferentes de computadores. Uma coisa importante é que os computadores eram fabricados por empresas diferentes e tinham sistemas operacionais diferentes. Os computadores estavam em lugares diferentes e eram gerenciados por organizações diferentes. Sabíamos que era importante conectar esses computadores e havia vários motivos para haver troca de dados entre os projetos. Havia um propósito geral de ser usado por diferentes projetos. Eles pegaram essa ideia geral de conectar os computadores e deixaram em aberto, para quem fosse usar, a maneira como a rede seria usada.

Por que era difícil conectar esses computadores e como vocês resolveram o problema?

S. C. – Era difícil de conectar esses computadores por dois motivos. Do ponto de vista de hardware, os computadores naquela época não vinham com nenhum tipo de conexão. Hoje, quando você compra um computador, existe todo tipo de conexão, conexões para internet, USB e assim por diante. É fácil fazer os computadores trabalharem juntos. Eles estão todos prontos para ser conectados em rede. Naquela época, não havia uma maneira fácil de conectá-los, mesmo que eles fossem do mesmo fabricante. É como se cada um deles fosse uma ilha. Esse era o problema de hardware. O problema de software era que não havia programas para transferir informações de um computador para outro. Tivemos de começar de uma folha em branco. O problema de hardware foi resolvido de uma maneira relativamente fácil, mas o problema de software era complexo, porque os computadores falavam linguagens diferentes, tinham maneiras diferentes de codificar a informação. Tivemos de fazer alguma tradução de um para outro.

Em um texto publicado no ano passado, o sr. destacou a importância do governo na criação da internet. Poderia falar mais a respeito?

S. C. – Era um ambiente muito especial. A parte do governo que criou a Arpanet era a Darpa, originalmente chamada Arpa, que quer dizer Agência de Projetos de Pesquisa Avançados (Advanced Research Projects Agency, em inglês). É uma pequena parte do governo que financia pesquisa, em uma variedade de diferentes áreas. Já havia bastante pesquisa em ciência da computação. Como construir computadores melhores e mais rápidos. Como torná-los mais inteligentes. Havia trabalhos em inteligência artificial, em compreensão da fala, em grandes bancos de dados, em gráficos avançados, em arquiteturas de multicomputadores, para construir supercomputadores. E esses trabalhos estavam acontecendo em diversos laboratórios, ao redor dos Estados Unidos, em universidades e em companhias sem fins lucrativos ou de pesquisa. Nesse ambiente, a Arpa decidiu criar essa rede experimental, chamada Arpanet, que iria conectar os laboratórios já existentes. A parte importante é que eles financiavam pesquisa em todos esses laboratórios e diziam: você será conectado, isso não se discute, mas não terá de pagar nada por isso e não haverá competição. Diferentemente de um empreendimento comercial, ninguém precisava se preocupar com a maneira de se fazer dinheiro a partir daquilo. Ninguém precisava se preocupar se outras pessoas estavam saindo na frente. Foi uma experiência muito colaborativa, no lugar de ser uma experiência competitiva. Nesse caso, o ponto essencial foi o financiamento governamental.

Como o sr. vê a situação da internet hoje? Conseguiria imaginar, alguns anos atrás, como ela se tornaria importante?

S. C. – Respondo bastante essa pergunta, como você pode imaginar. Às vezes eu brinco que tudo está acontecendo exatamente como foi planejado. Mas deixe-me dar uma resposta mais séria. Como a rede foi criada para conectar lugares em que se pesquisava o futuro da ciência da computação, podíamos enxergar bastante à frente. Você deve ter visto que Douglas Engelbart, o inventor do mouse, morreu há alguns dias. Ele era o responsável pelo segundo ponto conectado à Arpanet, na SRI (sigla em inglês de Instituto de Pesquisa de Stanford), e eu estava na UCLA, o primeiro ponto. No laboratório dele, vimos o mouse e todos os trabalhos que ele estava fazendo, e isso foi em 1968. Conseguíamos ver o que ainda não estava comercialmente disponível para todo mundo. Víamos a direção futura e a única grande questão era quanto tempo ia levar.
O sr. pode falar mais sobre a importância de Engelbart?

S. C. – Muitos de nós que o conhecemos, e que fizemos parte da comunidade de que ele participou, estivemos pensando na sua morte nos últimos dias. Na época, na comunidade de pesquisadores, houve várias pessoas que receberam muito mais atenção, porque estavam fazendo computadores maiores ou o que parecia ser pesquisa mais profunda. O impacto do trabalho de Engelbart pode ser comparado ao de qualquer outro. Seu trabalho levou ao que foi desenvolvido no Parc (Centro de Pesquisas de Palo Alto, na sigla em inglês), da Xerox, e depois à criação do Macintosh, e se tornou a principal forma de interagir com o computador para todo mundo.

O Macintosh é de 1984. Na sua opinião, por que demorou tanto tempo?

S. C. – O tempo foi surpreendentemente longo das ideias iniciais até um uso bem difundido. Dependendo da tecnologia, de 20 a 30 anos é um ciclo típico. Isso pode parecer estranho, porque tudo parece acontecer de repente na internet, mas de fato existe um período de tempo em que as ideias são trabalhadas nos laboratórios até se transformarem em produtos, tipicamente é um longo tempo até se tornarem comuns.

O sr. poderia contar como foi a criação do Request For Comments?

S. C. – Naquele período inicial, quando reunimos pessoas de diferentes laboratórios, primeiro nos encontramos várias vezes, durante um período de vários meses, de agosto de 1968 até março de 1969. Tivemos muitas discussões sobre como a rede funcionaria e sobre como faríamos isso. Em março de 1969, decidimos que seria melhor começar a escrever quais eram nossas ideias, e me ofereci como voluntário para escrever e organizar as ideias. Fiquei preocupado que, se escrevesse essas anotações de maneira errada, poderia parecer que estava querendo assumir uma autoridade, e parecer mais importante do que era. Porque era um estudante de pós-graduação e ninguém me havia tornado responsável por nada. Quis deixar claro que as anotações procuravam refletir nossas ideias, mas que não estava dizendo que essa era a única maneira que poderia ser feita. Foi um truque, de certa forma, de classificar tudo como pedido de comentários, para acertar o tom e deixar claro que todos estavam convidados a aceitar as ideias ou não, a escrever respostas para elas, acrescentar coisas novas ou modificá-las. O primeiro RFC foi impresso em papel e enviado por correio convencional.

Como o sr. vê o futuro da internet?

S. C. – Eu diria duas coisas. Hoje, existem cerca de 2,5 bilhões de usuários, um pouco menos de metade da população do mundo. Uma das coisas que eu espero que aconteça é o aumento do uso da internet até que praticamente todo mundo no planeta seja usuário.
Outra coisa seria o seguinte: atualmente, somos bem cientes do uso da internet, de quando estamos conectados à internet. Acho que, no futuro, todos estarão conectados, mas sem pensar sobre ela. A visibilidade ou a percepção da internet vai ficar em segundo plano. Todo mundo usa a eletricidade, mas ninguém fala muito a respeito.

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